|
PUBOVAGINAL SLING
USING THE PORCINE SMALL INTESTINE SUBMUCOSA FOR STRESS URINARY INCONTINENCE
PAULO C.R. PALMA,
MÍRIAM DAMBROS, CÁSSIO L.Z. RICCETTO, VIVIANE HERRMANN, NELSON RODRIGUES
N. JÚNIOR
Division
of Urology, State University of Campinas (UNICAMP), São Paulo, Brazil
ABSTRACT
Introduction
and Objectives: A new sling material derived from porcine small intestine
submucosa (SIS) is now available for surgical treatment of stress urinary
incontinence (SUI). It consists of a natural matrix of collagen and other
tissue components, which provide the strength and flexibility important
to an effective sling device. In this study, we report on the early outcomes
with the SIS for treatment of SUI.
Material and Methods: Since March 2000 thirty
women with proven stress incontinence underwent a suburethral sling procedures
using the SIS biomaterial as the sling material. The average patient age
was 50 years (30 to 73 years). Among the 30 63.3% had had some previous
surgical treatment for SUI and 40% had some degree of cystocele. Valsalva
leak point pressure (VLPP) revealed anatomic SUI in 43.3% (mean VLPP 102
cm H2O) and sphincteric intrinsic deficiency was diagnosed in 56.7% (mean
VLPP 52 cm H2O). The dry SIS biomaterial (the configuration was a 2 x
10 cm, multi-layer strip) was soaked in antibiotic solution (15 minutes)
to hydration prior to use. The surgical protocol involved transvaginal
placement of the SIS sling suspended by polypropylene sutures fixed to
the rectus fascia.
Results: The mean follow up was 8 months
(range 1 to 13 months). Of the 30 patients, 28 (93.3%) were cured of stress
incontinence and 1 reported improvement. Postoperative urinary retention
was observed in 3 patients (10%). Neither urinary nor wound infection
was detected, and no patient developed postoperative urinary irritative
symptomatology. There was no evidence of local or systemic reaction to
the material in any of the patients.
Conclusion: SIS is a simple, safe and effective
procedure. Our early results warrant further evaluation of the SIS as
a sub urethral sling for use in surgical repair of Stress Urinary Incontinence.
Key words:
urinary incontinence, stress; treatment; pubovaginal sling; porcine
Braz J Urol, 27: 483-488, 2001
INTRODUÇÃO
A
criação de alças pubovaginais ou slings aponeuróticos
datam do início do século passado (1). Esta técnica
é atualmente aceita como a mais eficiente no tratamento da Incontinência
Urinária de Esforço (IUE) por lesão do mecanismo
intrínseco da uretra (2), bem como naqueles casos onde há
risco de falha das cistouretropexias, tais como em pacientes obesas, portadoras
de doença pulmonar obstrutiva crônica e falha de cirurgias
prévias (3,4).
A
confecção de alças pubovaginais autólogas
exige a realização de grandes incisões abdominais
quando se utiliza a aponeurose dos músculos retos abdominais (4),
ou incisão na coxa quando se utiliza a fáscia lata (5).
Para
conferir características minimamente invasivas e realizar este
tipo de cirurgia com apenas um dia de internação, vários
materiais sintéticos foram utilizados, tais como o teflon, goretex
e mersilene, dentre outros (4,6,7). Entretanto, infecção
do implante e a erosão da uretra ou bexiga foram as principais
complicações observadas com a utilização destes
materiais (4).
Com
a finalidade de superar muitas das limitações dos materiais
de suporte acima citados, foi desenvolvido um novo biomaterial derivado
da submucosa do intestino delgado suíno (SIS). Este material oferece
um procedimento cirúrgico mais rápido, com tempo de cirurgia
diminuído e uma rápida permanência no hospital.
O
SIS é atualmente utilizado para correção, reforço
e substituição do tecido mole, incluindo aplicações
cirúrgicas urológicas, ginecológicas e gastroentererológicas.
Testes pré-clínicos demonstraram características
de biocompatibilidade com vários hospedeiros e ausência de
reações alérgicas locais e sistêmicas (8).
Recentemente, foi configurado em uma tira para aplicação
específica como suporte suburetral e estudo inicial, com seguimento
curto, demonstrou cura em todas os casos avaliados, sem complicações
significativas (9).
No
presente estudo os autores relatam sua experiência com a utilização
do novo biomaterial no procedimento do sling pubovaginal para o tratamento
da Incontinência Urinária de Esforço.
MATERIAL E MÉTODOS
Casuística
No
período de março de 2000 a abril de 2001, 30 mulheres com
queixas de Incontinência Urinária de Esforço foram
submetidas ao procedimento de Sling Pubovaginal com implante de um novo
material biológico, o STRATASISâ, para o tratamento cirúrgico
da incontinência. A mediana de idade foi 50 anos (variando de 30
a 73 anos) e 63.3% referiu história prévia de correção
cirúrgica antiincontinência, sendo mais freqüente o
procedimento de Kelly-Kenedy (referido por 78% das pacientes).
Ao
exame clínico, 40% das mulheres apresentaram algum grau de cistocele
(variando do grau I ao III).
O
exame urodinâmico indicou a presença de hipermobilidade do
colo vesical em 43.3% das pacientes, com Pressão de Perda sob Esforço
(PPE) média de 102 cm H2O, variando de 92 a 119 cm H2O. Em torno
de 56.7% das pacientes apresentaram PPE média de 52 cm H2O, variando
de 38 a 85 cm H2O, indicando a presença de deficiência esfincteriana
(2).
Material
Implantado
O
material utilizado constitui-se de uma tira de camada múltipla,
com tamanho de 2 x 10 cm e aproximadamente 0.4 mm de espessura (STRATASISâ,
COOKâ*) (Figure-1).
O
biomaterial foi conservado em temperatura ambiente, em estado desidratado
que, imediatamente antes do implante, foi imerso em solução
fisiológica com antibiótico a fim de que o mesmo adquirisse
suas propriedades naturais de estiramento e força tensil.
A
faixa é extraída da submucosa do intestino delgado suíno
que, após processamento, torna-se uma estrutura acelular formada
por uma matriz de colágeno (tipos I, III e V) e fatores de crescimento
(TGF-beta e FGF-2).
Técnica
Cirúrgica
O
procedimento foi realizado com raquianestesia e com a paciente em posição
de litotomia. Após a anti-sepsia do campo operatório, realizou-se
uma incisão em U invertido na parede vaginal, iniciando 1 cm abaixo
do meato uretral externo e estendendo-se em direção ao colo
vesical, que foi identificado pelo balão do cateter de Foley número
18F colocado previamente na bexiga. Realizou-se dissecção
com tesoura, lateralmente ao ramo ascendente do ísquio e a seguir
a fáscia endopélvica foi perfurada, atingindo-se assim o
espaço de Retzius. Teve-se o cuidado de colocar a tesoura de Metzembaum
tangenciando o ísquio e apontada para o ombro homolateral da paciente.
O colo vesical e a uretra foram liberados de possíveis aderências
da parede vaginal. A seguir, o sling de colágeno que mediu cerca
de 10 cm de comprimento por 2.0 cm de largura foi imerso em solução
contendo 50 ml de soro fisiológico e 240 mg de gentamicina. Esta
imersão fez com que a faixa de colágeno absorvesse líquido
e antibiótico, o primeiro permitindo que o sling adquirisse flexibilidade
e força tensil e o segundo evitando contaminação
e infecção do enxerto biológico. O sling foi suturado
nas extremidades com fios de polipropileno número zero que foram
levados até a região supra-púbica através
de uma agulha de Stamey introduzida na região supra-púbica
e avançada sobre o periósteo do púbis até
a incisão vaginal (Figure-2). A mesma manobra foi repetida do outro
lado. A incisão vaginal foi suturada com fio de categute 3.0 e
um cateter de Foley intra-vesical, posicionado via uretral, foi deixado
durante 24 horas.
Seguimento
das Pacientes
As
pacientes retornaram mensalmente ao ambulatório para avaliação
clínica. Naquele momento foram questionadas sobre a presença
de micção espontânea, perda urinária involuntária,
sintomas irritativos vesicais e dor vaginal e supra-púbica.
Na
ausência da queixa de perda urinária, mesmo que mínima,
as pacientes foram classificadas como curadas. Na presença do sintoma
as mesmas foram agrupadas conforme a gravidade da perda referida por elas:
a)- referiam melhora de mais de 75% dos sintomas pré operatórios;
b)- referiam melhora entre 50 - 75% dos sintomas pré operatório;
c)- referiam melhora inferior a 50% e d)- não houve modificações
dos sintomas após a cirurgia ou piora dos mesmos.
RESULTADOS
O
seguimento médio das pacientes foi 8 meses, variando de 1 mês
a 13 meses.
Todas
as pacientes urinaram espontaneamente dentro de uma semana de pós-operatório,
sendo que 90% urinou em até 36 horas após o procedimento,
sem auxílio de cateterismo vesical.
Quinze
porcento das mulheres referiram sintomas irritativos leves como disúria
e polaciúria, nos primeiros 7 dias após o implante, sendo
que, após este período nenhuma paciente referiu persistência
das queixas.
Não
foram detectadas reações no local da incisão vaginal
como inflamação, infecção ou sinais de rejeição
do material implantado. Não foram relatadas queixas de sensação
de corpo estranho ou desconforto vaginal em decorrência do material
implantado.
Até
o período médio de seguimento, 28 mulheres (93.3%) apresentavam-se
curadas da incontinência urinária e 1 (3.3%) referiu melhora
de aproximadamente 75% da perda urinária. Somente 1 paciente (3.3%)
relatou permanência dos sintomas pré operatórios.
DISCUSSÃO
Uma
ampla variedade de materiais tem sido utilizada para confecção
do Sling pubovaginal (1). Encontram-se descritos na literatura o uso de
fáscia lata, aponeurose do músculo reto do abdome, polipropileno,
derme de porco, mersilene, todos com resultados iniciais favoráveis,
porém com relatos de complicações (8,10,11). A utilização
de mersilene pode levar a erosão uretral com conseqüente formação
de fístula uretro-vaginal ou ainda estar associado à formação
de cálculos (12). Foram descritos infecção da ferida
operatória utilizando a derme de porco (8) e formação
de granuloma e erosão vaginal com o uso de mersilene (13). Foi
encontrada rejeição ao dacron em 19.3% dos pacientes e ao
Goretex em 30% (14). Recentemente, Martucci et al. demonstraram 90% de
complicações pós-operatórias com a utilização
do Sling de pericárdio bovino (15). Algumas teorias foram propostas
para explicar o mecanismo da rejeição induzida pelos materiais
sintéticos: presença de infecção e reação
do tipo corpo estranho, sendo que a infecção pode ser um
fator de rejeição precoce (14). A utilização
de material rígido pode levar a formação de úlcera
facilitando a infecção secundária. O material sintético
desencadeia uma reação tecidual, promovendo uma reação
imune de hipersensibilidade tardia, sendo esta resposta maior ou menor
na dependência da biocompatibilidade do material utilizado (14).
Quando
se opta pela utilização do material sintético para
a confecção do Sling, o uso de um material que leve a mínima
reação do tipo corpo estranho, pequeno risco de infecção,
rejeição e erosão são necessários para
o sucesso da correção cirúrgica.
O
uso de biomateriais para a correção e substituição
de tecidos moles está se desenvolvendo rapidamente, em parte deve-se
à possibilidade da regeneração tecidual ser estimulada
pela aplicação de biomateriais naturalmente compatíveis
e também pela disponibilidade destes produtos.
O
Sling uretral formado a partir da submucosa do intestino delgado suíno
tem sido utilizado desde 1999 no tratamento cirúrgico da Incontinência
Urinária de Esforço (9). Este material é composto
de matriz extracelular de colágeno e, depois de implantado, incorpora-se
ao tecido hospedeiro e é substituído por ele. O SIS é
remodelado pelo tecido receptor e não forma um tecido fibrótico
generalizado. Em estudos pré-clínicos este biomaterial demonstrou
maior resistência à infecção bacteriana, quando
comparado a enxertos com material sintético (8). Isto ocorre, provavelmente,
devido à rápida neovascularização que inicia
logo após o implante do material. A utilização deste
material na confecção de Sling suburetrais tem como finalidade
promover um suporte, a longo prazo, necessário para minimizar a
hipermobilidade do colo vesical e melhorar a coaptação da
mucosa uretral em pacientes com incontinência urinária e
forte componente esfincteriano.
No
presente estudo, não detectamos sinal de infecção
e rejeição ao material implantado. No seguimento das pacientes,
não observamos reação fibrótica no local da
incisão vaginal e nenhuma paciente referiu desconforto nesta região
ou dispareunia. Em um estudo clínico semelhante, envolvendo 18
pacientes, foi realizado ultra-som transvaginal 3 meses após a
cirurgia e observado que o Sling foi completamente substituído
por tecido do hospedeiro, não sendo possível detectá-lo
após este período (9).
Observamos
que, após 1 semana de procedimento cirúrgico, todas as pacientes
estavam urinando espontaneamente e após este mesmo período,
nenhuma referiu queixas de sintomas urinários irritativos. Comparando
aos resultados descritos com a técnica de Sling pubovaginal onde
utilizou-se material sintético ou mesmo autólogos, detectou-se
índices maiores de sintomas de obstrução infra-vesical
nestes casos. Acreditamos que a remodelação tecidual imposta
pelo biomaterial implantado levando ao desenvolvimento de um tecido natural
seja responsável pela formação de um suporte suburetral
com propriedades de estiramento e flexibilidade que promovam uma sustentação
mais anatômica e fisiológica. Entretanto, este mecanismo
ainda não é completamente conhecido.
O
alto índice de cura obtido neste estudo (93%), bem como o baixo
índice de complicações, fazem desta técnica
uma possibilidade promissora no tratamento da incontinência urinária
de esforço, caso os resultados demonstrem-se duradouros no seguimento
mais longo.
CONCLUSÃO
A
despeito de resultados ainda precoces os dados encontrados no presente
trabalho apontam a utilização do biomaterial, formado por
uma matriz acelular de colágeno, como alternativa promissora no
tratamento cirúrgico da incontinência urinária de
esforço.
O
Sling pubovaginal, utilizando material extraído da submucosa do
intestino suíno, demonstrou-se procedimento rápido e simples
e, associado ao fato que a maioria dos Urologistas conhece a técnica
descrita, pode-se concluir sobre a possibilidade deste biomaterial, se
mantidos os bons resultados iniciais, tornar-se parte do arsenal terapêutico
da incontinência urinária de esforço.
___________________
O material implantado
foi fornecido gratuitamente
pela Cook Urological Incorporated.
REFERÊNCIAS
- Goebel
R: Zur operativen Beseitigung der Angeborenen Incontinentia Vesicae.
Z Gynak Urol, 2: 187-190, 1910.
- McGuire
EJ, Fitzpatrick CC, Wan J, Bloom D, Sanvordenker J, Ritchey M, Gormley
EA: Clinical assessment of Urethral Sphincter Function. J Urol, 150:
1452-1454, 1993.
- Blaivas
JG, Olsson CA: Stress incontinence: classification and surgical approach.
J Urol, 139: 727-731, 1988.
- Noris
JP, Boslin DS, Staskin DR: Use of synthetic material in sling surgery:
a minimally invasive approach. J Endourol, 3: 227-230, 1996.
- Low J:
Management of severe anatomic deficient of urethral sphincter function
by a combined procedure with a fascia lata sling. Am J Obstet Gynecol,
105: 149-153, 1969.
- Morgan
JE, Forrow GA, Stewart FE: The marlex sling operation for the treatment
of recurrent stress urinary incontinence: a 16 year review. J Am Obstet
Gynecol, 151: 224-227, 1995.
- Stanton
SL, Brindley GS, Holmes DM: Silastic sling for urethral sphincter incompetence
in women. J Obstet Gynec, 92: 747-750, 1985.
- McGuire
EJ, Lytton B: Experience with pubovaginal slings for urinary incontinence
at the University of Michigan. J Urol, 138: 525-526, 1987.
- Lai R,
Alexianu M, Badlani G: Favorable results from the porcine small porcine
intestinal submucosa (SIS) in pelvic floor surgery. J Endo, 14: supll
1, A64, 2000.
- Juma
S, Little NA, Raz S: Vaginal wall sling: four years later. Urology,
39: 424-428, 1992.
- Iosif
CS: Porcine corium sling in the treatment of urinary estresse incontinence.
Arch Gynecol, 240: 131-136, 1987.
- Melnick
I, Lee RE: Delayed transection of the urethra by mersilene tape. Urology,
8: 580-582, 1976.
- Myers
Dl, LaSala CA: Conservative surgical management of Mersiline mesh suburethral
sling erosion. Am J Obst Gynecol, 179 (6 Pt1): 1424-1428, 1998.
- Debodinance
P, Cosson M, Burlet G: Tolerance of synthetic tissues in touch with
vaginal scars: review to the point of 287 cases. Eur J Obstet Gynecol
Reprod Biol, 87: 23-30, 1999.
- Martucci
RC, Ambrogini A, Calado AA, Zerati M, Muller MEA: Pubovaginal sling
with bovine pericardium for treatment of stress urinary incontinence.
Braz J Urol, 26: 208-214, 2000.
___________________
Received: June 6, 2001
Accepted after revision: August 13, 2001
_______________________
Correspondence address:
Dra. Míriam Dambros
Rua Engenheiro Edward de Vita Godoy, 966 / 12
Cidade Universitária, Distrito de Barão Geraldo
Campinas, SP, 13084-090, Brazil
E-mail: miriamdambros@hotmail.com
|